Terca, 08 de Marco de 2005, 23:48:00
março 8th, 2005 | by Aldrin Leal |O Longo Caminho de Volta pra Casa…
Uma carta para a alma que eu vendi.
Estado da Sobriedade, 9 de Março de 2005.
Prezado ex-eu,
Você
tinha razão: Eu iria me corromper. E me corrompi. Imagino agora neste exato
momento a sua expressão de espanto, ao perceber a minha completa condescendência
com a ocorrência deste fato, fato este que consiste, entre outras coisas, na
sua imaginação de me ver deixando de ser alguém original, e sendo apenas mais
um no meio de tantas outras, e me banhando na lama com todos os outros porcos.
E
me divirto com isso: Sua expressão de perplexão diante do fato me diverte. Me
diverte achar que as pessoas continuam mantendo preconcepções a meu respeito.
Ora, se um dia eu era uma pessoa insuportável e me tornei, à custa de duras
penas, me tornar um garoto amável, porque diabos eu haveria de me tornar o
homem que temes?
Suspeito
que aí esteja o seu erro: Ao julgar que eu gostaria de permanecer sendo apenas
o homem amável, havias esquecido que eu sou uma pessoa, dotada de anseios,
expectativas, desejos. E carne. Esta carne possui outras necessidades.
Omiti-las seria ignorar o que me é inerente ao meu ser. E ser bom jamais foi
minha pretenção. Confio no seu discernimento: Eu já fui você, e vice-versa.
Quando
te vi cada vez mais de longe, sendo levado pelo dinheiro que comprou minha
alma, fiquei a pensar nisso: Se vendi minha alma pelo dinheiro, porque o mesmo
haveria de afastar-se de mim? Percebi o estelionato a qual me sujeitei, e
tentei alcançá-lo. Porém, quanto mais eu tentava me aproximar do seu novo
comprador, mas eu me sentia longe de aonde eu estava. E a minha lucidez chamou
mais alto, e tive que voltar e reencontrá-la. Afinal de contas, a minha lucidez
ainda é mais importante que a minha alma, lembra?
E
eis que estou aqui, no estado da sobriedade, te escrevendo estas linhas ternas.
Sei que estás com saudade de mim, e ressentido pela decisão da qual nós dois
sabíamos que iria acontecer, e o quanto estávamos cientes quanto das consequências.
Deu no que deu, e sabíamos disso. Lembre-se disso ao tentar recobrar sua fé e
lembrar-se dos seus dogmas: Não ia ser fácil para nenhum de nós dois. E não está
sendo. Não leve pro lado pessoal: Um homem pode até perder sua alma, mas jamais
deve perder sua cabeça. E no fundo, eu apenas a perdi: Não ganhei meus trinta
dinheiros. Pior: fui enganado, roubado, e estou aqui, frustrado. Da minha
parte, suspeito que este assunto se encerrou aqui, e não espere nada além
disso.
Como
somos a mesma pessoa, estou aproveitando e querendo, na esperança que seu dono
te deixe ler esta carta, mesmo que às costas dele (porque ele busca ser duro,
mas não é capaz de te dominar. Quanto a mim, isto foi outra história). Espero
que esta garrafa seja lida. Se não for lida por você, acredite: Este
esclarecimento deixará alguém ciente do que eu estou passando. Mas somente você
será capaz de decifrar o sentido completo disto tudo.
Lembra
quando elocubrávamos junto, sobre homens versus heróis? A terna diferença sobre
ser um anjo ou um animal? Nada disso me soa sensato hoje: O jogo cada vez se
define mais, a trama cada vez alcança sem apex, vértice da espiral que
servir-se-à para o início do longo caminho da volta pra casa. Talvez o caminho
me seduza mais do que o reencontro: Me soou sempre claro que a viagem é mais
divertida que o destino. E sempre foi.
Eis
o ponto: Sem alma, me sinto mais livre que com uma. É como se eu não tivesse
mais o compromisso de ser mais alguém. Meus valores sumiram, minha moral e ética
idem. Sua perplexidade não me sensibiliza mais. Como diz Crowley, companheiro
inseparável de nossos diálogos, ou, mais especificamente, meus desabafos:
Uma rosa
vermelha absorve todas as cores, exceto o vermelho;
Portanto,
vermelha é a última cor que a rosa vermelha, de fato, o é
Esta lei, a
razão, o tempo, o espaço, e todas as limitações nos cegam à verdade
Tudo o que
sabemos do homem, natureza, deus é apenas relativos ao o que eles não o são; e é
isso que eles jogam fora que é repugnante
Ou seja: É
tudo um grande jogo, e uma grande personificação.
Um dia te
conto mais da minha vida, mas minhas posses me dominaram e agora, estou na
necessidade de atendê-las.
Cordialmente,
Aldrin
Leal.
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