Segunda, 13 de Junho de 2005, 11:31:03

junho 13th, 2005 | by Aldrin Leal |

Ascenção e Queda

Outra carta para a alma que eu julgara ter vendido

Estado de Reclusão, 13 de Junho de 2005

 

            Meu ex-eu,

 

            Quando

conversávamos da vez anterior, o tema principal era eu ter esquecido a minha

verdade e ter buscado a dos outros. Talvez este fosse o grande motivo do nosso

desentendimento.

            Na

verdade, percebo a gravidade do meu erro em buscar assustá-lo e amedrontá‑lo.

Denunciá-lo certamente não era a melhor política. Na verdade, cada vez mais

vejo espaço para você no mundo que enxergo (e busco) hoje. Por um motivo muito

simples: Não me percebo mais dono de nada. Logo, não possuído por nada. Se me

vendi, me comprei de volta. Tive a alforria que precisava. O que houve foi

apenas um flerte, rapidamente tornado farsa e hoje talvez um motivo de arrependimento.

Com você.

            Busquei

atacar a minha própria pureza e ingenuidade, assassiná-la, mas o que vi foi que

as pessoas gostaram ainda mais de você, mesmo que por meios considerados

ortodoxos. A cada tombo, alguem surgia. Fui acolhido, limpo, tratado com

curativos, e tive aquele carinho fraternal de quem teve a sensibilidade de

sentir a dor no outro e acolhe-lo para o seu lar. Note-se: Por várias pessoas.

Como de praxe, depois tenho que ouvir aquela velha ressalva de quem não

compreende tudo, você sabe. Ainda aprendo a ser compreendido, mas o momento não

é este.

            Exposto

os fatos e percebido a distância entre a minha verdade e a sua, confesso meu

erro: Como podia condená-lo? Somos a mesma pessoa! Na verdade, lhe devo

desculpas, em particular, por ter-lhe atacado, buscado denunciar, mesmo sabendo

que, no fundo, aquilo era uma leviandade minha. E as peço aqui, em público. Por

favor, espero que as aceite.

            Infelizmente,

isto não signifique que volte para casa. São 15 pras 4 aqui. Da manhã. O que

posso afirmar é que a caminhada foi longa, será mais longa, e só você é capaz

de imaginar a dimensão do quanto vivi, experimentei, aprendi, lutei, e me

briguei. Ainda não sei direito aonde quero chegar, mas não importa. A verdade é

que amei, odiei, me percebi e resolvi. Impus a dor a mim e aos outros, na

medida certa. Me permiti confundir, mas, no momento certo, consegui confundir e

reaver o controle. Perdi coisas, ganhei coisas, na mesma medida que achei. Tudo

ao mesmo tempo. Foi mais fácil do que pensei, até. O fato é que você sabia que

tive muitos anseios, e o maior motivo de toda esta minha ansiedade foi originada

da necessidade de manter vários segredos, ao mesmo tempo, sobre várias coisas.

Saber demais complica. E talvez só agora faça sentido tudo o que ocorreu. Esta

fase de aprendizado me foi útil, e revelou-se bastante valiosa de 3 meses pra

cá. Espero poder ter certeza do que estou falando, e poder contar-lhe tudo a

você quando estiver-mos juntos. Mas adianto: isto será em breve, segure a

saudade.

            Quanto

aos segredos, descobri a razão daquele medo que tínhamos. Meu intuito atual é

resgatá-lo e me ver como você, só que mais próximo do que tínhamos como ideal e

meio de vida. E que não se resuma a momentos passageiros. O caminho porém não

ainda me é claro, mas estou pensando nisso com bastante atenção.

            Estou

menos Crowley e mais Nietzche ultimamente. Embora Reznor ecoe "Terrible

Lie" na minha cabeça, curiosamente. Talvez esteja mais para "No

Attention", do Soundgarden: Com guerra na mente, sangue nas mãos, e amor

na cabeça. Apesar da idéia de denunciar as mentiras do mundo me agrade, sei que

meu compromisso hoje, está muito mais em realizar meus sonhos e buscar criar a

vida que realmente quis. Aquele impossível que eu sempre gostei de realizar

perante o assombro alheio. Porém, entenda: o dilema do criador é ter que

aceitar que o que a sua criação faz não é o que o criador deseja. Karma de

Filho Pródigo quando o pai é Jó: querendo voltar pra casa, mesmo sem ter uma.

Ou querendo fazer uma, visto que a sua ficou inabitável.

            Não

pretendo negar as minhas origens: Eu vim de você. Porém, entenda que eu não sou

mais você. Eu o abandonei e o deixei no passado. Mas admito que você me foi,

sem dúvida, a pessoa que mais me inspirou a ter forças. O nosso passado de bons

combates ainda fica na nossa memória, e sei disso. Infelizmente, é hora de agir

em nome da nossa própria sobrevivência.

            O

erro de Nietzche foi justamente este. Irônico, pensar que o homem que buscava

lutar contra monstros acabou dizimado por uma loucura, monstro para este que

fora psicólogo no século XIX. Loucura esta que veio depois dele perceber o

quanto era simples – e limitado, portanto -, o mundo em que viviamos. Isto lhe

custou a companhia das pessoas, que, à hora em que ele mais precisou delas,

souberam lhe negar. Tenho pena do pobre homem, mas sem dúvida, foi o meu grande

mestre do viver. Nem que seja para perceber que entre a teoria e a prática,

existe uma distância. O que houve com ele foi não consegui-la balanço entre uma

e outra.

            Me

divirto agora, em particular, ao imaginar o quanto de confusão eu soube criar

na cabeça das pessoas. Você se orgulharia do que eu fiz, com ações simples.

Você não sabe o quanto me foi confortável os últimos 2 dias, embora o preço que

tivesse pago para me sentir feliz, após vários conflitos e incompreensão do

mundo não lhe soasse suficientemente adequado. Pessoas surtaram, pessoas vieram

a mim. Outras, me ignoraram. Outras, me desprezaram. Outras, me aceitaram. Uma,

não aceitou. Muitas, se lamentaram. Outra, me denunciou (mas pediu desculpas, é

do jeito dela). Mas, se é isso que importa, pude realmente filtrar e perceber

quem merecia a minha atenção, e hoje posso afirmar, com algum quê de segurança,

quem eu posso abraçar e quem eu não preciso me dar ao trabalho de olhar no

rosto. Quem eu posso beijar e quem eu posso exercitar a minha crueldade.

            Quanto

a elas, não me importo. Apenas pedi àquelas que buscaram me entender a

compreensão. A quem não buscou compreender, àquele momento ou no passado, estou

buscando apenas desobstruir o meu caminho. Delas. Não quero vingança, mas

também não quero paz. O que desejo, é o meu destino. Quando me reencontrar com

o mundo, sentir em comunhão dele, e selar àquelas feridas do passado, sei que

estarei lá. Aonde sempre queríamos estar, lembra? A única diferença agora é que

pretendo manter a minha sanidade mental (ou o pouco que permiti restar dela -

embora ainda útil -), mas armado da minha nova amiga, a surpresa.

            Permita-me

apresentá-la. A minha "guerra" com você, na primeira carta, foi pouco

percebida. Na verdade, apenas quem possuía uma sensibilidade aguçadíssima

percebeu a dimensão do que se configurava diante de mim. Estas pessoas souberam

ter a grandeza de respeitar o meu caminho e minhas decisões, mesmo que por

caminhos mais tortos que os meus. Nisso, os objetivos da minha primeira carta

em publico a você foram atingidos: as pessoas vieram a mim. E eu vi, no meio da

crise, quem lutava. E quem não lutou. E quem não queria lutar. E quem quis, mas

não podia. Saiba disso: As pessoas se revelaram.

            Completamente:

Quem me desejava, quem me precisava, quem me amara, quem me fofocara, quem me

incomodara, quem me assimilara, quem me ensinara, quem me denunciara, quem me

buscara, quem me acompanhara, quem me anunciara, quem me chamara, quem me

confessara, quem me dedicara, quem me sensibilizara, quem me usara, quem me

difamara, quem me invejara, quem me aliara. O principal: Quem me era honesto

com si mesma, quem não era. Agora sim, posso discernir quem pode ser honesto

comigo. A recíproca será – se não foi – verdadeira. Isto, no seu devido momento

e foi porque dei atenção aos outros. Até demais. Parei, e elas se revelaram.

Porém o agora é a minha hora. E a oportunidade de resolver no agora. Não peço ao

agora a hora para que isto aconteça: Ela já começou, por minha própria

iniciativa.

            Durante

anos, escrevemos o insomnia. Embora até 2002 ele fosse exclusivamente seu, ele

passou a ser algo nosso. Hoje, somente eu tomo conta dele. Isto define muita

coisa, como principalmente a mudança na abordagem e no que poderia ser

comentado. Poucas pessoas a entenderam, mas sei que muitas o leram. Agradeço a

todas a compreensão e a incompreensão. Gostei até dos sorrateiros, e me diverti

com quem buscou atacá-lo. Até com quem eu sei, no fundo, que se incomoda

comigo. Pretendo premiar as pessoas que julgo que foram especiais assim que

chegar na minha nova casa. E buscar, fora daqui deste meio – e até deste mundo

-, as coisas que faltavam na nossa definição de felicidade.

            Muito

obrigado por tudo. Se me orgulho do meu passado, devo-o a você, e não me

negarei de me lembrar disso, pois, do nosso compromisso de vida, muita coisa

irá depender. Mas agora chegou a minha vez, e quero a minha parte dos combates.

Por favor, espero que entendas e que não me julgues mais, como também evitar

julgá-lo. Somos distintos, mesmo sendo a mesma pessoa. Aonde realmente quero

chegar, hoje, é acima do bem e do mal, mas ainda abaixo do julgamento. Quero apresentar-lhe

o além-do-homem. Pois é dele este mal e esta loucura, já dizia Nietzche.

 

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